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Internet, globalização e desemprego

Renato Sabbatini


Não sou adepto das teorias de Karl Marx e acho que ele, apesar de todo o seu imenso papel histórico, foi apenas mais um dos inúmeros teorizadores que tentaram prever o futuro da humanidade e falharam. Mas Marx escreveu uma coisa que está começando a provocar arrepios de reconhecimento nos que estão estudando a evolução das relações socioeconômicas mundiais neste final de século, a chamada "globalização".

Globalização tem muitos significados, mas no contexto do que queremos analizar significa a queda das numerosas barreiras que sempre caracterizaram, de um modo ou de outro, o isolamento comercial, cultural e geográfico entre as nações. Por exemplo: há 100 anos atrás, as notícias vindas da Europa e dos EUA vinham de navio ou por cabo submarino (ainda em sua infância), e tudo era mais lento. O comércio mundial era muito restrito, assim como o desenvolvimento dos mercados mundiais. Não existiam multinacionais. As confrontações bélicas entre as grandes potências estavam no auge, a ponto de entrar nos horrores de duas guerras mundiais, em menos de 40 anos.

A partir da invenção da TV e dos satélites de telecomunicações, a marcha de tudo começou a se acelerar exponencialmente. Com o informatização geral das sociedades civilizadas e o surgimento da Internet, uma revolução sem precedentes se instalou. Hoje, um adolescente do interior da Paraíba é capaz de comprar CDs de músicas em um "site" do norte da Califórnia, pagando um quarto do preço que pagaria pelo mesmo produto vendido na lojinha de sua cidade. Um investidor de Cingapura pode vender ações na bolsa do Chile e aplicar o dinheiro na bolsa de Londres, em questão de minutos. Um comerciante de Miami pode encomendar pela Internet um carregamento de blusas de seda da China, por um décimo do valor que pagaria no Brasil. Um engenheiro recém-formado na Bélgica acha um bom emprego em qualquer outro país europeu em questão de segundos.

Nesse ambiente de competitividade exarcebada, as empresas estão lutando para se adaptar. Ao mesmo tempo, têm que cortar custos de produção, aumentar a qualidade e investir em marketing internacional. A Internet está permitindo o surgimento de empresas globais de comércios e serviços, com infraestruturas físicas e humanas mínimas. A solução, na maioria das vezes, tem passado pelo corte insensato de pessoal, gerando legiões de desempregados.

E o que Marx escreveu ? Ele disse que a contradição final do capitalismo seria atingida quando pouquissimas pessoas fossem capaz de produzir todos os bens de consumo. Só que não teriam para quem vender, pois a massa da população já estaria desempregada, a essa altura. O resultado será o colapso da estrutura capitalista de produção, auto-envenenada pelo seu próprio desenvolvimento.

Recentemente, um analista dessas tendências "previu" que as fábricas do futuro terão apenas um homem e um cachorro. O homem, com a função única de alimentar o cachorro, e este com a incumbência de impedir que o homem ponha a mão nas máquinas que fazem sozinhas toda a produção.

Uma séria conseqüência de todo esse estado de mudança constante é o nível altissimo de estresse constatado nas pessoas que trabalham em empresas colhidas pelo vendaval da globalização. Recentemente participei de vários levantamentos feitos em empresas de alta tecnologia, passando questionários para os empregados, com a finalidade de avaliar o nível de estresse e fiquei espantado. Uma das empresas, uma multinacional estabelecida há muitos anos no Brasil, tinha feito uma "reengenharia" (palavra que adquiriu, por causa disso, conotações sinistras) e demitido mais de metade do seu pessoal. Os que sobraram estavam fazendo mais coisas do que todos os empregados anteriores juntos, e vivendo sob o espectro da perda do emprego em uma nova onda de reajustes. A Informática e a Internet permitiram esse aumento de produtividade, entre outras coisas.

No entanto, os EUA estão com o desemprego no nível mais baixo de sua história, e com a economia em pleno crescimento, sem inflação. Por que será ?


 

Publicado em: Jornal Correio Popular, Campinas, 02/09/97.

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