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Boatos e Verdades na Internet

 

Renato Sabbatini


A Internet está se firmando como a fonte principal de dados e informações para uma parte significativa da população. Por isso, torna-se cada vez mais importante a questão da qualidade e da credibilidade dos "sites" que a proporcionam. Infelizmente, no entanto, os usuários, principalmente os que têm pouco conhecimento prévio sobre algum assunto que estão procurando na Internet, não conseguem distingüir com facilidade o que é bom do que é ruim, entre as centenas ou milhares de páginas que acham. O fato é que existe muito "lixo", ou seja, informações errôneas, incompletas ou simplesmente enganadoras na poderosa rede mundial de computadores.

Na área da saúde isso é particularmente perturbador, pois a informação errada pode causar danos ou até a perda da vida, em quem a segue sem contestação. Preocupado com isso, o governo americano, a Associação Médica Americana, a Food and Drugs Administration (agência do governo americano responsável pela vigilância sanitária) e outras entidades estão desenvolvendo critérios de avaliação da qualidade dos "sites" de saúde na Internet e tomando medidas sérias para inibir a fraude e as charlatanices que estão ficando cada vez mais comuns. No Brasil, o Conselho Federal de Medicina e o Ministério da Saúde também estão estudando o assunto.

O correio eletrônico, com a rapidez com que pode ser espalhado para milhares de pesssoas em todos os cantos do mundo, é uma ferramenta poderosa para disseminar boatos e inverdades. Na Unicamp, recebemos constantemente perguntas de leigos que querem saber se uma determinada afirmação que está correndo na Internet é verdadeira. Algumas são tão bem escritas que geram a dúvida e até mesmo o pânico entre quem as recebe. Mas todas as que examinamos até hoje, sem exceção, são falsas ou não tem fundamento científico.

A maioria dos boatos na área de saúde se refere ao "grande matador", o câncer. Querem ver alguns?

Um dos primeiros boatos a circular pela Internet, e que chegou a afetar a venda de refrigerantes dietéticos em vários países, é de que o aspartame, o adoçante artificial neles utilizado, causaria câncer cerebral, pois se transforma em formalina dentro do corpo (uma substância que mata células cerebrais). O boato é acompanhado por dados que "mostram" que houve um grande crescimento de tumores cerebrais no período que coincide com a adoção do aspartame em alimentos e bebidas, principalmente entre crianças, e cita uma série alarmante de "casos conhecidos" de gente que desenvolveu câncer ao consumir refrigerante demais. Como todo boato, ele tem alguma coisa de verdade, e muito de mentira. Realmente o aspartame se transforma em formalina, mas em quantidades tão pequenas que não poderiam ter qualquer ação significativa. Muitos tipos de câncer cresceram em incidência nos últimos 20 anos, mas é porque as outras formas de mortalidade diminuiram, ou porque o diagnóstico precoce se tornou possível graças aos avanços da Medicina (tomografia, por exemplo).

Vários boatos recentes dizem respeito ao câncer de mama, a mais comum e temida forma de neoplasia nas mulheres. Um deles, que obteve grande divulgação recentemente, afirma que o uso de desodorantes axilares causaria essa forma de câncer, pois bloquearia a secreção de toxinas pela cadeia de gânglios que drena a mama, e que passa justamente pela axila. Cita, inclusive, que a região mais comum onde ocorrem os nódulos é no quadrante superior lateral, que estaria "mais perto da axila", e que ele afetaria mais as mulheres porque elas "depilam as axilas, facilitando a penetração do desodorante na pele". Assustou muita gente, mas é totalmente falso, pois não existe nenhum trabalho cientifico que tenha comprovado essa associação. Os homens têm menor incidência de CA devido a fatores genéticos e hormonais. A cadeia ganglionar drena toda a mama, e não um setor específico. Não existe uma área da mama com incidência maior do que as outras.

Outro boato coloca a culpa do câncer de mama no uso contínuo de soutiens pelas mulheres, pois eles "restringiriam a circulação sangüinea e linfática nos seios, causando a acumulação de toxinas cancerígenas". Um "site" alarmista na Internet chega a ensinar técnicas de massagens circulares nos seios, a serem feitas à noite por todas as mulheres que usam soutien, de modo a impedir essa acumulação (omitindo um detalhe: que essa massagem é bastante dolorosa e traumatiza os delicados tecidos mamários, podendo ser muito mais danosa do que o suposto efeito dos soutiens…).

Como se vê, as pessoas que inventam esses boatos são inteligentes e sabem concatenar logicamente uma seqüência de fatos quase-verdadeiros ou verdadeiros, de modo a produzir um argumento com grande poder de convencimento para quem não entende fisiologia, anatomia ou patologia. Notem, por exemplo, que as tais "toxinas" nunca são identificadas. Os boatos normalmente afirmam que a comprovação foi feita em "trabalhos feitos por cientistas renomados", mas nunca citam a fonte original das informações. É comum, também, eles alegarem que os dados estão sendo mantidos em segredo pelas autoridades médicas, ou estão sendo suprimidos pelos interesses das indústrias de soutiens, refrigerantes ou desodorantes. Essas paranóias são as marcas usuais de informações fraudulentas ou inventadas, e são um truque muito usado para convencer os crédulos e despreparados.

O impressionante é como as pessoas tendem a acreditar nos boatos falsos enviados pelo correio eletrônico. É o resultado da mística dos computadores: parece que tudo que sai deles é mais verdadeiro ou mais crível, em virtude da associação com a alta tecnologia digital. O único antídoto é ser cada vez mais cético em relação ao que se lê por aí. E com isso, eu tive uma idéia genial: porque não começamos a espalhar "boatos" de que fumar causa câncer no pulmão, que beber álcool demais destrói a saúde, que dirigir sem utilizar cinto de segurança aumenta o risco de morte em uma batida, e que a obesidade aumenta o risco de contrair diabetes e doenças cardíacas? Quem sabe o povo começa a acreditar nessas coisas, que são todas verdadeiras…
 



Renato M.E. Sabbatini é professor e diretor associado do Núcleo de Informática Biomédica da Universidade Estadual de Campinas, colunista de ciência do Correio Popular, e colunista de informática do Caderno Cosmo. Email: sabbatin@nib.unicamp.br

Veja também: Índice de todos os artigos anteriores de Informática do Dr. Sabbatini no Correio Popular.



Publicado em: Jornal Correio Popular, Campinas, 28/4/2000 .
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