A Internet na Indústria Farmacêutica

A Internet é uma rede global de computadores que tornou-se um fenômeno de massa excepcional na história da humanidade, e que hoje representa uma nova revolução científica, tecnológica, social e econômica, equivalente à invenção da imprensa por Gutenberg. O grande número de usuários e de computadores interligados a essa nova mídia (são atualmente 230 milhões de usuários) crescerá ainda mais nos próximos meses quando dispositivos simples e portáteis, como telefones fixos e celulares, palmtops e eletrodomésticos, também forem conectáveis à rede.

O maior potencial revolucionário na Internet repousa em três pontos: interatividade, conectividade global e independência da localização geográfica. Formas mais sofisticadas de interação, como a TV interativa e a videoconferência, serão uma realidade banal quando chegar a Internet de alta velocidade. Na área da saúde, estas novas ferramentas ainda são pouco utilizadas, mas detêm um potencial enorme de benefício à comunidade médica, através do acesso à informação científica on-line, da comunicação com os pacientes, com as seguradoras médicas e fornecedores de medicamentos e equipamentos. Nos países mais desenvolvidos já é significativa a participação dos profissionais da saúde na rede: somente um dos serviços de fornecimento de informações médicas, chamado MedScape, tem mais de 1.200.000 usuários cadastrados, de mais de 80 países. A telemedicina também se transforma em realidade, com os custos mais acessíveis e uma melhor disseminação na comunidade médica. Ela permite o envio de dados dos pacientes, como imagens médicas, através da rede, o acesso à segunda opinião, e trazem enormes benefícios a comunidades remotas e isoladas, sem acesso a especialistas, etc.

A indústria farmacêutica é um dos setores da economia que mais utiliza processos de informação. Quatro aspectos têm assumido importância cada vez maior no contexto da globalização da economia, do aumento da competitividade, do controle da qualidade e do relacionamento diferenciado com os clientes. Dois deles são tradicionais na indústria farmacêutica: o relacionamento com os médicos e o acesso às bases de dados essenciais às suas atividades. O advento da Internet os está modificando de forma profunda e irreversível. Um terceiro processo de comunicação é inteiramente novo na indústria, e só se viabiliza economicamente quando realizado através da Internet: é o contato direto com o usuário dos medicamentos, tanto no mercado OTC quando no ético.

Atualmente, um número muito grande de companhias farmacêuticas descobriu as vantagens e o excelente retorno para a imagem empresarial proporcionado por uma presença competente na Internet.

O
quarto e o mais novo processo está começando a acontecer: é o comércio eletrônico de produtos e serviços através da Internet. Essa tendência foi assinalada nos últimos meses nos EUA, onde foram inaugurados vários sites voltados ao mercado consumidor (B-to-C), como Drugstore.com, PlanetRX, Healthshop, etc. A expectativa dos investidores não é pequena, porque o mercado será de algo como US$ 1,7 bilhão em 2003 naquele país. As farmácias virtuais serão as principais empresas de vendas on-line para consumidores no setor saúde, mas inicialmente elas têm concentrado seus esforços nos medicamentos sem receita. No Brasil também estão começando a surgir as farmácias virtuais, embora o governo federal insista que essa atividade ainda não é regulamentada, sendo, portanto, ilegal. Uma solução para o problema é aliar as farmácias on-line às cadeias de farmácias com lojas físicas, que se responsabilizam pela entrega ao usuário contra apresentação da receita, se for o caso. Entre os medicamentos que exigem receita, aqueles voltados para pacientes com condições crônicas, como cardiopatias, hipertensão, diabetes, artrite, etc., serão o grande filão, e muitas empresas voltadas a esse segmento, denominado Pharmaceutical Benefits Management (PBM), deverão surgir.

T
udo isso fica pequeno, entretanto, quando comparado com a outra modalidade de comércio eletrônico, o B-to-B, ou seja, a venda no atacado entre empresas (por exemplo, o laboratório vendendo medicamentos para o distribuidor e este para as farmácias). Aqui os números começam a ficar espantosos, e o lucro é real. Estima-se que se possa atingir 5 a 10 bilhões de dólares nos EUA em 2003 na área da saúde. A Internet é ideal para esse mundo, pelas facilidades que oferece para fazer leilões, escambos, localização rápida de ofertas, licitações eletrônicas, compras em grupo, etc. Os principais sites que estão surgindo concentram-se nos suprimentos hospitalares e na distribuição de medicamentos e outros produtos médicos.

Existem muitos problemas éticos e legais a serem enfrentados em tudo isso. A área da saúde não mexe apenas com mercadorias e vendas de serviços, mas com a vida de seres humanos e com uma série de temas éticos que devem ser respeitados. Deve-se tomar cuidado para que a ânsia moderna por dinheiro não perturbe e modifique de forma radical esses princípios básicos da medicina. E, sem dúvida, nossos legisladores devem conhecer a nova realidade e criar regulamentações que a favoreçam, preservando os direitos dos usuários.
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Renato M. E. Sabbatini é professor adjunto e coordenador da área de Informática Médica da Faculdade de Ciências Médicas da UNICAMP, criador do Hospital Virtual Brasileiro e da Farmácia Virtual, ex-diretor de Informática da Associação Médica Brasileira, editor de várias revistas na área e consultor de tecnologias de informação para empresas farmacêuticas, de informática e Internet.



Professor
doutor
Renato Sabbatini

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