Médicos sem Fronteiras

 

Renato Sabbatini

O prêmio Nobel da Paz deste ano foi concedido à organização humanitária Médicos Sem Fronteiras (MSF), que foi fundada por médicos franceses em dezembro de 1971 para atuar em catástrofes naturais e humanas, como guerras, terremotos, inundações, fomes, secas, etc. Seus fundadores se conheceram trabalhando como voluntários internacionais em serviços médicos de emergência durante a horrenda guerra civil da Biafra, na Nigéria, e na qual aprenderam que o socorro médico imediato e independente de barreiras políticas, ideológicas, nacionais e raciais era fundamental para salvar o maior número possível de vidas.

O que é admirável na MSF é como ela pode manter esses ideais durante todo esse tempo. Com suas ações, ela tem ajudado também a formação da opinião pública mundial contra a violência, a brutalidade, as violações dos direitos humanos, os abusos do poder e os horrores da guerra. Seus médicos (todos voluntários, e mantidos por doações) já atuaram em 80 paises, tais como na Nicarágua, Armênia, Turquia (terremotos), Honduras (furacão), Vietnã, Líbano, Camboja, Tailândia, Afganistão, Etiópia. Sudão, Libéria, Curdistão, Somália, Burundi, Ruanda, Zaire, Congo, Bósnia, Kosovo, Chechênia (guerra civil) países do Saara (seca), Coréia do Norte (fome), etc. Sua ação mais recente foi no Timor. Mas a MSF não fica só nisso. Pouca gente sabe que seus médicos e enfermeiros ajudam na reabilitação de hospitais e ambulatórios, em programas de vacinação e em projetos sanitários para melhorar as condições de existências dos povos miseráveis e marginalizados, vivendo em favelas ou ambientes extremos.

O fundador do grupo, o Dr. Bernard Kouchner, declarou estar "profundamente emocionado" com o prêmio, e que estava "pensando em todas as pessoas que tinham morrido sem ajuda, em todos aqueles que tinham morrido esperando alguém bater à sua porta". Não é para menos: todas as pessoas que tem um pouco de humanidade em seus corações também ficaram emocionadas. Alías, esta não é a primeira vez que um Nobel da Paz é concedido a uma organização humanitária ligada à medicina. O Comitê Internacional da Cruz Vermelha, fundado pelo suiço Henri Dunant (que ganhou o primeiro Nobel da Paz, em 1901), já foi premiada três vezes: em 1917, 1944 e 1963. A organização Médicos Internacionais pela Prevenção da Guerra Nuclear também foi premiada, em 1985.

É o momento para nos lembrarmos do grande inspirador de todos esses movimentos médicos humanitários, o Dr. Albert Schweizer (1875-1965), um médico alsaciano, que também recebeu o prêmio Nobel da Paz em 1952. A vida e a dedicação deste grande gênio da humanidade foi um exemplo para muita gente (eu, inclusive, quando, aos 16 anos, decidi estudar medicina em Ribeirão Preto). Schweitzer, que até os 30 anos não entendia nada de medicina, era filho de um pastor luterano. Ele era um teólogo, pastor, filósofo, professor universitário, escritor e músico (organista, especializado em Bach) reconhecido internacionamente. Ao ler uma publicação da Sociedade Missionária de Paris sobre a necessidade desesperadora de médicos para a África, ele decidiu largar tudo o que estava fazendo e estudar medicina, contra a oposição de todos os colegas, amigos e parentes (e também da própria Sociedade Missionária!). Em 1913, formado em medicina aos 37 anos, e já casado com uma enfermeira, Hélène, abriu um hospital em Lambaréné, na França Equatorial Francesa (hoje Gabão).

No restante de sua longa vida (ele morreu com 90 anos), Schweitzer, dedicou-se ao sublime sacerdócio de ajudar os doentes e pobres de um dos mais pobres países africanos. Ficou famoso por seu trabalho com os hansenianos. Ele era movido por um sentido de compensação pelas violências cometidas pelos poderes coloniais europeus, de pagamento de culpas e pecados. Sua formação em religião e filosofia o levou, em 1915, ao princípio que denominou de "Reverência pela Vida", como uma base ética universal para aquilo que ele estava procurando quando ainda estava no auge da fama e da juventude. Nela, ele enfatizava a "vontade de viver" como valor ético e moral supremo e a interdependência de todas as formas de vida com a nossa, tornando-as, assim, sagradas.

Ao receber o prêmio na Academia Sueca, o Dr. Schweitzer, que já estava preocupado há muito tempo com os problemas que a guerra fria e as armas atômicas poderiam trazer para o mundo, fez um discurso em que chamava a atenção para a corrida nuclear e a favor da paz. Em 1957 ele publicou um apelo mundial, intitulado "Uma Declaração de Consciência", que se tornou uma verdadeira bíblia para o movimento antinuclear, inclusive para Lord Bertrand Russell e a Organização Pugwash, fundada por cientistas (que também recebeu o Nobel da Paz). Todo o dinheiro do prêmio foi caracteristicamente doado pelo Dr. Schweitzer ao hospital de Lambaréné, para construir um lazareto para os hansenianos.

Schweitzer foi um pensador profundo, que além de sua obra emocionante e inspiradora, deixou muitos pensamentos para a posteridade. Sobre a filantropia, ele disse: "Cada um precisa achar seu próprio Lambaréné [] Não existem heróis de ação, apenas heróis da renúncia e do sofrimento". Com sua filosofia de Reverência pela Vida, ele foi um precursor dos atuais movimentos em defesa do ambiente e dos direitos humanos, ao escrever:
 

"A ética do homem não deve terminar no homem, mas se estender a todo o universo. Ele precisa se tornar consciente novamente sobre a grande cadeia da vida, da qual ele não pode ser separado. Ele precisa entender que todas as criações têm o seu valor. O resultado para nós é não somente um aprofundar dos relacionamentos, mas uma maior amplidão dos mesmos".

 

 

Para Aprender Mais

 

 

Publicado em: Jornal Correio Popular, Campinas, 22/10/99.

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