
Se a idéia de GALILEU comemorar 13
anos no mês do cachorro louco lhe causa um certo
arrepio, relaxe. Você não está sozinho nem perdeu o bom
senso. Ao contrário do que diz a sabedoria popular
(aquela mesma que manda carregar um pé de coelho na
bolsa), superstição não é atestado de ignorância. 'O
pensamento mágico é o que domina nosso cérebro. A razão
é um mecanismo recente', diz o neurofisiologista Renato
Sabbatini, professor da Faculdade de Ciências Médicas da
Unicamp (Universidade Estadual de Campinas) e presidente
da Sociedade Brasileira de Céticos e Racionalistas. Isso
significa que a crença em amuletos e sortilégios é o
formato natural do pensamento humano e, portanto,
exatamente aquilo que se espera de nós.
Não passar debaixo de escada, bater na madeira, jogar
sal sobre o ombro, cobrir espelhos - essas práticas,
aparentemente sem nexo, fazem parte da nossa herança
cultural inconsciente. O fato de muitos supersticiosos
confessarem, quando questionados, que tais hábitos são
um pouco bizarros mostra que grande parte das
superstições não é de natureza individual, mas
socialmente transmitida. Para fazer parte do bando, a
gente se benze quando vê um gato preto. Só por via das
dúvidas.
Embora façam interpretações distintas sobre seu
significado, Sigmund Freud (1856-1939) e Carl Jung
(1875-1961) estão de acordo que as crenças e práticas
supersticiosas estão profundamente enraizadas nos
processos mentais inconscientes do homem; ambos afirmam
que a superstição não é algo do passado ou que se limita
às pessoas pouco instruídas - de fato, é considerada
como parte integrante da constituição mental de todos,
pronta a vir à superfície em determinadas
circunstâncias. A escolaridade pode até influenciar o
formato dessa crença - os menos letrados procurariam
benzedeiras, pessoas mais cultas seguiriam gurus -, mas
tudo não passa de uma roupagem diferente.
'A superstição é universal', afirma a antropóloga
Maria Helena Villas Boas Concone, professora de
pós-graduação da PUC (Pontifícia Universidade Católica)
de São Paulo. 'Ela existe em todas as sociedades e
abrange todas as camadas sociais. É como um lençol
freático que a ciência não conseguiu soterrar.' Tão
verdadeira é essa observação que o sociólogo,
antropólogo, historiador e filósofo francês Edgar Morin,
um dos maiores intelectuais contemporâneos, diz que o
Homo sapiens também é, indissoluvelmente, 'Homo demens',
um ser dividido entre o mundo concreto e o imaginário,
alguém forjado, por natureza, para racionalizar e
acreditar.
As pinturas rupestres, com seus simulacros de pessoas
e animais para atrair boa caça, já indicavam
superstição. Mas, afinal, o que significa o termo?
Dicionários, em geral, explicam superstição como 'crença
infundada', 'prática religiosa irracional', 'hábito
assentado no medo ou na ignorância'. Fácil perceber que
não é um termo que as pessoas usam para falar de si, mas
para descrever a crença do outro. Era assim que antigos
missionários classificavam as religiões indígenas que
estavam tentando substituir.
| Treze à
mesa |
Entre as superstições mais
populares está a que diz respeito às sextas-feiras
13. Uma das teorias para a origem dessa crença é
judaico-cristã: a Última Ceia, que precedeu a
morte de Jesus por traição do 13º convidado,
ocorreu em uma sexta-feira. Mas a idéia de que
nunca se deve reunir 13 pessoas para jantar é na
verdade muito mais antiga e remonta à mitologia
nórdica. Diz a lenda que um banquete para 12
deuses no Valhalla (o Paraíso escandinavo)
provocou a ira do deus do fogo, Lóki, por ter
ficado de fora. Enciumado, ele teria armado uma
cilada para o deus do Sol, Baldur, favorito de
Odin - o deus dos deuses.
A sexta-feira, por ser o 'dia de Frigga', a
deusa-bruxa do panteão nórdico, acabou associada
com o mal pelas culturas cristãs. Prepare-se,
porque temos uma este mês. |
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